Durante anos, o governo da Bahia justificou gastos crescentes com festas, shows e eventos culturais sob o argumento de que o turismo precisava ser fortalecido. A lógica parecia simples: investir em atrações para movimentar a economia, gerar empregos e atrair visitantes. O problema é que uma investigação agora levanta suspeitas de que parte desse dinheiro pode ter servido a interesses muito diferentes dos interesses da população.
As denúncias envolvendo a Sufotur são alarmantes porque apontam para algo além de contratos questionáveis. O que emerge é a suspeita de uma engrenagem montada para drenar recursos públicos através de cachês superfaturados, empresas interligadas e bandas de pouca expressão utilizadas como instrumento para multiplicar pagamentos.
O aspecto mais grave não está nos grandes shows que atraem multidões. O foco principal das suspeitas parece estar justamente onde poucos olhavam. Pequenas bandas, artistas desconhecidos e apresentações rápidas teriam sido transformados em uma espécie de mina de ouro para intermediários. Segundo relatos apresentados na investigação, havia casos em que uma estrutura simples, com custos reduzidos, resultava em pagamentos públicos de dezenas de milhares de reais. Em alguns episódios, as apresentações duravam poucos minutos, apenas o suficiente para gerar fotos e vídeos que comprovassem a realização do evento.
Se essas denúncias forem confirmadas, trata-se de um esquema perverso. Porque enquanto a população acreditava que o dinheiro estava fortalecendo a cultura e o turismo, recursos públicos poderiam estar sendo desviados por meio de contratos aparentemente legítimos. O resultado é devastador: menos dinheiro para investimentos reais e mais espaço para grupos que enxergam o Estado como oportunidade de negócio.
Há ainda uma questão política inevitável. Quando irregularidades são apontadas durante anos por órgãos de controle e os mesmos problemas continuam aparecendo, a responsabilidade não pode recair apenas sobre operadores menores do sistema. É necessário investigar quem autorizava, quem fiscalizava, quem ignorava os alertas e quem se beneficiava politicamente da manutenção desse modelo. A sociedade tem o direito de saber se existiam outros agentes públicos envolvidos além daqueles já mencionados nas auditorias e investigações.
Alguns setores costumam reagir afirmando que questionar gastos com eventos populares seria um ataque à cultura baiana. Essa crítica é falsa. Defender transparência não é ser contra festas. Defender fiscalização não é ser contra artistas. Defender o dinheiro público não é ser contra o turismo.
Na verdade, ocorre exatamente o contrário. A corrupção é a maior inimiga do turismo. Cada real desviado significa menos investimentos em estradas, aeroportos, segurança, saneamento e promoção turística. Quem superfatura contratos não fortalece a economia; enfraquece a confiança da população e prejudica a imagem do estado.
A Bahia não precisa acabar com suas festas. Precisa acabar com qualquer esquema que utilize as festas para enriquecer grupos privados às custas do contribuinte. O turismo continuará sendo uma das maiores riquezas do estado, mas somente será sustentável quando estiver apoiado em gestão séria, transparência absoluta e punição rigorosa para quem transformar recursos públicos em instrumento de corrupção.
A população baiana merece cultura, turismo e desenvolvimento. O que não merece é pagar a conta de esquemas que, se comprovados, terão roubado muito mais do que dinheiro: terão roubado a confiança de um povo inteiro
Por Redação
